Doutorando da UFMG faz descobertas inéditas sobre a piometra, infecção uterina em cães

Estudo indica formas de prevenção da doença, que é comum, grave e tem tratamento cirúrgico

O doutorando em Ciência Animal da Escola de Veterinária da UFMG Rafael Gariglio fez descobertas inéditas a respeito da piometra, infecção bacteriana comum que afeta o útero das fêmeas de cães e gatos. Apesar de frequente, a piometra é uma doença grave que exige tratamento cirúrgico – retiram-se o útero e o ovário dos animais doentes –, o que pode culminar em óbito, caso o procedimento não seja realizado rapidamente.

A pesquisa de Gariglio investiga a bactéria Escherichia coli, principal causadora da piometra, responsável por mais de 90% dos casos da doença. Entre as descobertas feitas pelo pesquisador, que valeram recohecimento no 6° Prêmio Zoodonto, no ano passado, está o fato de que a piometra pode ser contagiosa.

Gariglio avaliou mais de 70 animais, e um dos casos o surpreendeu. O pesquisador recolheu e analisou as bactérias de uma cadela que foi diagnosticada com a doença e submetida ao tratamento cirúrgico no hospital. Uma semana depois, a irmã do animal, que dividia o espaço físico com a doente, também foi diagnosticada com piometra e teve suas bactérias também analisadas.

“Até então, a piometra era tida como uma doença não contagiosa. Com a análise das amostras das cadelas irmãs, descobrimos que a bactéria é clonal, ou seja, os dois animais foram contaminados pela mesma bactéria, que foi transmitida de um para o outro. Isso indica a possibilidade de contágio, ao mostrar que há o risco de transmissão”, explica o pesquisador.

O estudo será descrito em artigo que deverá ser publicado no ano que vem. Segundo Gariglio, a publicação possibilitará a recomendação de que fêmeas com piometra sejam isoladas para não contaminarem as saudáveis. “A medida preventiva diminui as chances de que animais saudáveis venham a ter a doença. Até então, a única forma de prevenção era a castração das fêmeas”, explica.

 

Origem na boca

Outra descoberta inédita do estudo diz respeito à origem das bactérias que causam a enfermidade. Depois de extraído o DNA das amostras uterinas de pus de cadelas contaminadas, os sequenciamentos genéticos mostraram que elas reuniam muitas bactérias relacionadas à microbiota oral dos animais, ou seja, os microrganismos originavam-se na boca e chegavam aos úteros por meio da corrente sanguínea. Até então, acreditava-se que a procedência das bactérias era sempre intestinal.

“O animal pode se lamber, e, em vez de surgir no intestino, a bactéria aparece na boca. Essa descoberta também está relacionada à prevenção da doença, pois chama a atenção para o fato de que cuidados bucais também podem ajudar a evitar a piometra”, explica.

 

O fator alimentação

Rafael Gariglio também buscou entender por que as bactérias que conseguem migrar do intestino para o útero dos animais doentes têm índices de adesina superiores aos de outras bactérias. A adesina é a substância que esse microrganismo usa para se fixar no tecido uterino do animal. “Como o animal só adoece quando a Escherichia coli migra de seu intestino para o útero, é importante entender como ela consegue se fixar no útero e se tornar uma bactéria patógena, visto que, no intestino, ela não traz malefícios”, explica.

Gariglio então relacionou a alimentação das fêmeas à presença da piometra. Segundo o pesquisador, os estudos mostraram que cães submetidos a diferentes tipos de alimentação podem ter mais ou menos bactérias causadoras da piometra no intestino.

“Percebemos que, dependendo da alimentação, os animais podem apresentar a Escherichia coli com menos adesina, o que dificultaria a fixação da bactéria no útero dos animais, impedindo, assim, a manifestação da doença. Essa descoberta é importante porque sugere que podemos diminuir a ocorrência da doença por meio da alimentação dos animais. A intenção é aprofundar essa descoberta em pesquisas futuras, investigando a alimentação capaz de diminuir a adesina das bactérias e a consequente fixação delas no útero”, diz.

Gariglio agora pretende investigar formas de diagnóstico mais rápidas da doença. Hoje, o diagnóstico se dá por meio de exame de imagem. “A piometra deixa o útero do animal doente repleto de pus. Quero testar a possibilidade de coletar esse pus e fazer cultura das bactérias, o que possibilitaria o diagnóstico com biologia molecular”, conclui.

 

Fonte: UFMG