Segundo dados do IBGE, em 2020, a população brasileira era de 211,8 milhões de habitantes, morando em 5.570 municípios. Com base na autodeclaração, 55% da população se define como negra ou parda.

 

No ensino superior, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre os anos de 2005 e 2015, ocorreu um aumento de 25% de pessoas não brancas acessando às faculdades no país.  Um estudo da instituição aponta que na população com 25 anos ou mais, apenas 9,3% dos negros tinham ensino superior completo, enquanto a população branca havia chegado a 22,9%.

 

Em cursos com maior prestígio social, como a Medicina Veterinária, a presença de não-brancos é ainda menor. Mas sim, existem médicos-veterinários que se autodeclaram negros e que estão construindo ações para trazer visibilidade para essa parcela étnica de profissionais.

 

Entre iniciativas isoladas, uma delas tem se consolidado e está conquistando relevância como interlocutora social, trata-se do coletivo Afrovet (@afrovet).

 

E, nesse coletivo, uma das vozes mais atuantes é a do médico-veterinário Augusto Renan Rocha Severo dos Santos, médico-veterinário da Coordenadoria do Bem-Estar Animal (Cobema), da Prefeitura de Itatiba-SP, que também faz atendimentos de cães, gatos e pets exóticos.

 

Os membros do coletivo explicam que são “uma rede de graduandos e médicos-veterinários negros em prol de uma área mais inclusiva”.

 

Criação

Neto de baianos das cidades de Rui Barbosa e Muritiba, o médico-veterinário paulista Renan Rocha, é do grupo fundador do Afrovet. Ele conta que o coletivo “nasceu de um grupo de serviços e se tornou um grupo de transformação, com desempenho superior até mesmo ao inicialmente imaginado”, sendo que isso ocorreu justamente na época das manifestações anti-racistas do “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) que estavam ocorrendo em todo o mundo.

 

 

 

Tendo cursando Medicina Veterinária em Viçosa-MG, sempre tentou fazer parte da política estudantil. Em 2011, fundou o Grupo de Estudos de Animais Silvestres e no mesmo ano criou o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB).

 

Ele atribui o despertar da consciência para questões étnicas à mãe, “uma advogada que comprava revistas dirigidas ao público negro e falava da importância de se posicionar”. Em Viçosa, o NEAB realizou projetos para professores de escolas públicas, focados na Lei nº 11.645/08 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, incluindo o ensino da “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

 

Na época, a Universidade em Viçosa não tinha uma política dirigida para alunos afrodescendentes, mas isso não impediu que a administração da faculdade apoiasse os eventos do NEAB, como uma Aula Magna com Nilma Lino Gomes, que na época era a ministra do SEPPIR (Secretaria Especial de Promoção pela Igualdade Racial) do governo federal e que também foi a primeira reitora negra de uma universidade federal, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, em 2013. A presença dela lotou o auditório de capacidade para 800 pessoas.

 

Em maio de 2020, Renan foi aprovado em um concurso público em Itatiba e ficou preocupado com os seus clientes negros – que se identificavam com médicos-veterinários da mesma etnia e gostavam que seus bichinhos fossem atendidos por profissionais negros. Para dar suporte aos tutores, criou um grupo de WhatsApp apenas de clínicos para ter nomes para indicar a esses clientes, o VetPretosBR. O grupo cresceu e hoje tem cerca de 180 participantes entre clínicos, dermatologistas, oncologistas, entre outros profissionais, além de estudantes que estão na reta final do curso.

 

Renan deixa claro que nunca teve restrição de atender qualquer cliente que precise de seus serviços, mas não esconde a alegria do primeiro atendimento na modalidade Black Money, que conseguiu a partir de uma rede social que tem uma comunidade que liga consumidores negros aos prestadores de serviços negros, gerando a chamada Economia do Black Money, que visa aproximar e valorizar a identidade étnica dos profissionais no mercado.

 

Em agosto de 2020, os participantes do Veterinários Pretos BR decidiram dar um passo além e fundaram o Afrovet, que inicialmente foi administrado por Renan Rocha, Merielen Albuquerque, Grazielli Messias e Isabella Germano e hoje tem presença em diversas redes sociais.   No início de novembro de 2021, o perfil oficial do coletivo no Instagram já tinha 8.324 seguidores.

 

A estudante Merielen Albuquerque, do núcleo fundador, conta que a presença nas principais redes sociais foi algo planejado: “pensou-se em ocupar todas as principais redes como Instagram, Facebook, Tik Tok, Youtube, etc, para ter abrangência maior, pois às vezes a pessoa está apenas no Youtube e queremos chegar até ela.”

Todas as decisões são coletivas, mas as pessoas mais atentas às demandas de imprensa nesse momento são Renan Rocha e  Merielen Albuquerque.  Merielen Albuquerque conta que “os médicos-veterinários negros foram se encontrando no grupo, que tem o propósito de unir e centralizar os profissionais negros”.

 

Além do sucesso nas redes sociais, o Afrovet lançou a marca em grande estilo no meio médico-veterinário ao realizar o Primeiro Congresso Afrocêntrico, com uma grade de palestrantes totalmente afrodescendentes.

Foram 100 inscritos e o dinheiro foi doado para instituições artísticas que iram ser despejadas durante a pandemia. O interessante, relata Renan, “é que após o evento, os profissionais foram ‘descobertos’ e convidados a dar palestras em empresas e em outros espaços, saindo da invisibilidade”. Merilen é taxativa: “nos eventos que eu assistia a grade não tinha negros e eu sentia que não era meu lugar”.

“Essas pessoas não devem ser vistas apenas como profissionais negros, mas como pessoas que são competentes, que têm conhecimento e autoridade para falar sobre assuntos técnicos e científicos”, pontua Renan Rocha.

 

Cursando graduação na Uniara, em Araraquara, interior de São Paulo, Merielen Albuquerque deseja que esses eventos sejam mais frequentes e conta: “uma vez uma palestrante negra foi na minha faculdade e fiquei fascinada porque era igual a mim. Depois eu lhe disse que ela era uma inspiração. Ela ficou emocionada”.

 

Afromentor

No momento, um dos programas em atividade do Afrovet é de cunho educacional, o Afromentor. O graduando é selecionado por um profissional para participar de um projeto que “exige compromisso e dedicação, mas sem cobrança, pois o mentor quer apoiar e participar do crescimento. Geralmente quando o aluno é cotista, é mais pressionado, e não queremos ser parte da cobrança. A mentoria trata de ciência e de acolhimento”, explica Renan. “O mentor vai ser um exemplo de um profissional negro para o estudante. Eu não tive isso na graduação”, emenda o médico-veterinário.

Além dos objetivos étnicos e profissionais, o coletivo também estimula outros aspectos da vida dos participantes: “não é só Medicina Veterinária, é uma vida. O grupo tem o lado artístico, cultural, música, penteados, beleza, poesia, skin care… Isso tudo engloba, pois você é uma pessoa, é um todo”, detalha Merielen.

 

Futuro

Os fundadores do coletivo querem que o Afrovet mantenha-se como rede para profissionais e estudantes negros e que depois possa se tornar uma associação, “pois assim será possível formalizar estágios, patrocínios, organizar as oportunidades”, sonha Renan.

E quem sabe, no futuro uma parceira com grupos como a National Assocation for Black Veterinarian, sediada em Baton Rouge, Luisiana, Estados Unidos. Como diz Merielen, aqui no Brasil os médicos-veterinários negros “estão se encontrando”.

Fonte: CRMV-BA e CRMV-RJ